terça-feira, 22 de maio de 2012

AMEAÇAS À GEODIVERSIDADE. ESTRATÉGIAS E MÉTODOS DE GEOCONCERVAÇÃO


São grandes as ameaças à geodiversidade.
 Existe uma tendência natural para se pensar que a vida selvagem é mais frágil e vulnerável havendo portanto uma maior preocupação com a necessidade de a conservar.
 Rochas e montanhas são vistas como muito estáveis e estáticas!
Esta ideia é uma “relativização do problema” pois, muitos sítios geológicos, ou geositios, são extremamente frágeis. Um grande exemplo do que estou a falar, é a grande necessidade de preservar as estalactites e estalagmites de algumas grutas, visto estas serem fáceis de se partir. Algumas são verdadeiras obras de arte da natureza, e de uma extrema fragilidade, como podemos reconhecer ao visitarmos as Grutas de Mira de Aire situadas bem no centro de Portugal.
Muitas destas grutas quando abertas ao público ficam á mercê de alguns vandalismos visto as pessoas gostarem sempre de “levarem algumas recordações para casa”.
 Nestas ameaças podem também incluir-se alterações importantes nas características da paisagem.
 Nalguns casos, particularmente onde existe a extração de minério, paisagens inteiras podem ser destruídas. É também o que acontece com as explorações de pedreiras…
 Outros impactos negativos, que podemos observar sobre geodiversidade, com muita frequência, é a destruição de zonas de geoconservação provocadas pela expansão urbana e suas infraestruturas.
Outras, podem ser causadas, pela interferência de grandes obras de engenharia, que pela sua situação vão interferir com processos naturais, junto das margens dos rios ou zonas costeiras, como podemos reconhecer com a construção da barragem do Alqueva, que provocou uma verdadeira alteração da paisagem, com ocupação dos solos, alteração da fauna e flora e interferência ao nível das águas superficiais e subterrâneas. Embora estas obras por vezes, sejam necessárias, o deficiente estudo do impacto ao nível geológico e da geoconservação, mostra que houve fatores a este nível, que não foram devidamente ponderados.
Ainda podemos reconhecer a erosão do solo causada por práticas agrícolas insustentáveis, até à remodelação da topografia para criar campos de golfe vindo por vezes causar danos á geodiversidade.
Mas a grande ameaça de todas é a causada pela ignorância dos potenciais impactos de ações humanas!

ESTRATÉGIA E MÉTODOS DE CONSERVAÇÃO

Um dos objetivos da geoconservação, é manter a paisagem existente, incluindo a topografia natural dos solos, e manter, a evolução natural, dos processos da natureza.
Quando por alguma razão, se mostra justificada a mudança, esta deverá ser feita com uma total compreensão da mesma, e do seu significado para a geodiversidade, realizando para isso, um projeto adequado, que assegure a compatibilidade do mesmo com o carácter da paisagem local.
Uma das grandes preocupações deve ser promover processos, que levem à reestruturação da terra, para um estado mais natural.
Para Sharples (2002) a Geoconservação tem como objetivo a preservação da diversidade natural (ou geodiversidade) de significativos aspetos e processos geológicos (substrato), geomorfológicos (formas de paisagem) e de solo, mantendo a evolução natural (velocidade e intensidade) desses aspetos e processos”
Há vários métodos e estratégias que se aplicam nos processos de Geoconcervação.
Alguns métodos podem ser aplicados a todos os elementos da geodiversidade, mas outros são muito especializados e específicos. Em muitos casos, é necessário utilizar vários métodos para um mesmo sítio ou área.
Segue uma lista dos métodos que se utilizam nos processos de geoconservação
1-      O Sigilo
Este método é usado principalmente em fósseis e minerais locais, onde a descoberta não é anunciada, até o trabalho de pesquisa estar concluído e, mesmo no fim das pesquisa, mesmo que seja revelada a descoberta dos fosseis, o sitio ou área aonde se encontram não pode ser tornada pública.
2-      A Contenção Física
É um método importante que se destina a impedir o acesso público a muitos sítios geológicos sensíveis, particularmente grutas com fosseis, e áreas que se encontram em processos ativos, em que a permeabilidade do sistema de retenção pode variar.
3-      O Reenterro
Este, é um método bastante especializado, e raro em geoconservação, mas pode ser aplicado a sítios de fósseis, em particular, com o fim de evitar o acesso, cobrindo as áreas em exposição. Este método permite que futuros estudos de fósseis possam ser feitos in locu .

4-      Escavação e coleta
Este método é muito usado em geoconservação, em particular para os fósseis ​​e minerais vulneráveis, que são cuidadosamente removidas para um laboratório de museu, aonde são limpos e armazenados ou, exibidos.

5-       Licenciamento
É usado como método em locais em que se mostra necessário controlar o acesso de visitantes e investigadores, permitindo apenas um número restrito de visitantes por dia.

6-      Supervisão
É raro ser utilizada em geoconservação por causa dos custos.
7-      Cedência de Propriedade
Aplica-se aos locais e áreas que são cedidas a privados ou organizações. Estas têm um compromisso claro de geoconservação. Todos os elementos de geodiversidade, dentro da área usada, serão administrados de uma forma que proteja os interesses de conservação ou geoheritage.
8-      Legislação
A legislação é amplamente utilizada para dar proteção formal a áreas específicas, incluindo sítios geológicos e geomorfológicos.
9-      Política
 A Política é definida aqui, como uma medida não legislativa, e pode ser usada para alcançar os objetivos de Geoconservação de várias formas. Aplica-se a todos os elementos da geodiversidade e para todas as áreas, formalmente protegidas. Nalguns casos, a legislação permite que os detalhes da política aplicada venham a ser desenvolvidos mais tarde
10-  Educação
Podemos ver na educação o método mais importante a ser aplicado em geoconservação. É especialmente relevante, porque foi cientificamente provado que a maior das ameaças à geodiversidade é a ignorância (Gray 2004). É importante, por isso aplicá-lo a todos os seus elementos.
São necessários e de uma grande relevância, cursos de formação para os governo locais, técnicos de planeamento territorial, políticos, pessoal ligado á conservação da natureza, guardas florestais, ou seja, para todos os profissionais envolvidos na tomada de decisões sobre a Terra, e as questões do seu planeamento.
A educação em Geodiversidade, pode ser significativamente avançada, oferecendo temas de Ciência da Terra em currículos escolares e universitários
Esta, também pode ser desenvolvida, através de artigos publicados em revistas, televisão, sites, museus, parques temáticos e/ou Geoparques, na realização de atividades com os visitantes aos mesmos, como podem ser exemplo, a coleta de fósseis e minerais, ou percorrer trilhas geológicas com folhetos informativos do percurso.
Em conclusão, estes métodos de geoconservação, precisam de ter sempre em conta os diferentes elementos de geodiversidade.
 Por exemplo, a conservação dos solos deve ser abordado de forma muito diferente da conservação dos fósseis.
No caso dos fosseis, estes, podem ser protegidos através de legislação. No entanto, para a conservação dos solos, e das paisagens das zonas rurais, está provado, que o desenvolvimento de políticas e parcerias, na generalidade, ajuda a melhorar e a tornar mais eficiente os processos de conservação das mesmas.
É por isso muito importante, ter sempre em mente os vários métodos e estratégias de geoconservação, de forma a poder estudar e avaliar, aqueles que melhor se aplicam para cada caso, ou área a conservar, o geositio.



Bibliografia e Fontes:

Brilha J. (2005) – Património Geológico e Geoconservação – A Conservação da Natureza e Sua Vertente Geológica.Braga:Palimago.
Gray M. (2004) – Geodiversity

sábado, 19 de maio de 2012

GEODIVERSIDADE, CONCEITO E SEUS VALORES

Geodiversidade é um conceito novo.
Este termo “nasceu” por volta de 1993 Pensa-se que está ligado com a preocupação que alguns investigadores tiveram em preservar a Tasmânia. As primeiras expressões foram usadas por australianos e começou por ser definida pela “ Australian, Heritage Comission (2002)”,que a adotou como um princípio fundamental na Carta do Património Natural australiano:
"A conservação baseia-se no respeito pela biodiversidade e geodiversidade. Deve envolver mínimo possível de intervenção física nos processos ecológicos, processos evolutivos e processos da terra"
Isto deu um peso igual a biodiversidade e geodiversidade, na avaliação de propostas de zonas de conservação da natureza.
No seu livro intitulado “My Geodiversity“(Gray 2004), o autor começou por convidar os leitores a imaginarem, como seria o mundo se, não tivesse a diversidade de rochas, solos, topografia, os processos físicos, etc,
O “Planeta Terra” não é uma esfera perfeita composta de uma única rocha e tipo de solo. É extremamente diversificado em termos de materiais geológicos, nos seus relevos, nos seus processos físicos e nos diversos materiais fósseis.
Assim sendo a Geodiversidade foi definida por Gray como "the natural range (diversity) of geological (rocks, minerals, fossils), geomorphological (landform, processes) and soil features. It includes their assemblages, relationships, properties, interpretations and systems" (Gray 2004, p. 8).
Ou seja, podemos considerar aqui, a diversidade da natureza e todos os seus processos geológicos (rochas, minerais, fósseis), geomorfológicos (formas de relevo, processos) e as características do solo, incluindo as suas aparências, relações, propriedades, interpretações e sistemas.
Para José Brilha, a definição adotada foi a proposta pela “Royal Society for Nature e Conservation” do Reino Unido:
“Geodiversidade, consiste na variedade de ambientes geológicos, fenómenos e processos ativos que dão origem a paisagens, rochas, minerais, fosseis, solos e outros depósitos superficiais, que são o suporte para a vida na terra.”
Assim a geodiversidade integra também aspetos “não vivos” do nosso planeta, e a sua evolução ao longo dos tempos, e não apenas os “testemunhos provenientes de um passado geológico “, como são exemplos os minerais, rochas e fosseis, mas também, aqueles processos, que estão a decorrer atualmente e que irão dar origem a “novos testemunhos”.
Podemos portanto concluir que o termo “Geodiversidade" está a ser usado como o equivalente geológico da biodiversidade. Ganhou aceitação internacional e é usado nos últimos anos, garantindo assim o “status” de um paradigma geológico!

GEOCONCERVAÇÃO

A Geodiversidade constitui assim a base para a seleção dos locais de geoconservação.
Os objetivos e métodos de geoconservação podem variar, dependendo dos elementos da geodiversidade que estão a ser considerados.
Estes devem ser escolhidos para representar a geodiversidade de um país, província ou região.

 Gray identificou mais de 30 valores de geodiversidade com base:

·         No valor intrínseco (livre do valor que é dado pelo homem)
·         Nos valores estéticos, como pode ser exemplo o Grand Canyon, Canadian Rockies, ou os fiordes noruegueses
·         Nos valores econômicos, por exemplo, o óleo, carvão, metais, ou as pedras preciosas.
·         Nos valores funcionais, temos como exemplo as funções do solo entre outros.
·         Nos valores culturais, como pode ser exemplo, Uluru (Ayers Rock, Austrália), Petra, Stonehenge, White Cliffs of Dover)
·         Nos valores científicos e educacionais.

Através destes valores são identificados e selecionados os locais que devem ficar sujeitos a critérios de conservação, são os chamados locais de geoconservação ou geositios.

José Brilha no seu livro de Património Geológico e de Geoconservação chama a atenção para um recurso fundamental, e que o cidadão normal talvez não tenha consciência, que é fruto da geodiversidade: A Água
Na verdade, todas as características que esta apresenta, são fruto, da circulação deste elemento essencial à vida, pelo tipo de rochas por onde circula, dando-lhe características diferentes quanto ao sabor, temperatura, presença de gás e tantas outras…
O pouco respeito que houve neste último seculo, pode levar a que num futuro próximo, a água doce e de qualidade, venha a tornar-se um recurso escasso e passe a possuir uma enorme importância geoestratégica.

Nestes locais de geoconservação podemos e devemos integrar os geoparques.
Segundo a definição da Unesco um geoparque é um território de limites bem definidos com uma área suficiente grande para servir de apoio ao desenvolvimento socioeconómico local. Deve abranger um determinado número de zonas geológicas de relevo, raridade e beleza que seja representativa.
Em Portugal já estão classificados 3 geoparques, Naturtejo (aonde se encontra o Monumento Natural das Portas do Rodão), Arouca e Açores.



Bibliografia e Fontes:

Brilha J. (2005) – Património Geológico e Geoconservação – A Conservação da Natureza e Sua Vertente Geológica.Braga:Palimago.
Gray M. (2004) – Geodiversity